quinta-feira, 9 de setembro de 2010

BRINCO

Há uns dias atrás me deu à louca e tive a ideia de mudar. Nunca tive tanto medo da minha idade como estou tendo agora, por isso, vou procurar andar sempre na linha e não deixar de aparentar ser mais novo, não que seja só isso, mas pelo menos ficar parado por alguns anos em uma só idade – já que isso não vai durar pra sempre. Não sei com quem vi, de onde veio essa ideia, mas fiquei impressionado e fiquei com muita vontade de furar a minha orelha.

Passei todos esses dias preparando o psicológico, imaginando como seria a reação das pessoas, dos meus amigos e, principalmente da minha família quando soubesse, pois, claro, eles só iam saber e não ver – pelo menos dentro de casa e no trabalho. Às vezes eu fazia uma bolinha de papel e colava na minha orelha pra ver como ficava. Eu me agradava com aquilo, achava o máximo aquela simples bolinha presa ali. Eu podia imaginar que se a bolinha de papel estava boa, o brinco de verdade ficaria melhor ainda.

Ontem à noite, um pouco antes de descer para o Corredor da Folia Alegria (o prefeito resolveu trocar o nome não sei por que), fui à casa de uma amiga e na hora, como havíamos combinado dias antes, criei coragem de furar. Eu tinha levado o brinco, já estava tudo pronto, eu já estava ali. Confesso que minutos antes eu já estava querendo desistir, estava com medo de sentir dor, das consequências que poderiam me trazer caso infeccionasse, da reação das pessoas... mas eu não desisti. Mesmo com o coração na mão, ela disse que não ia doer e pediu para que eu ficasse calmo. Meu coração pulou nessa hora. Por um segundo, pensei em desistir definitivo, mas quando vi, já estava na primeira entrada, já estava furando, atravessando por completo. Eu não sentia nada a não ser menos de uma picada de mosquito.

Eu pedi um espelho e fui me olhar. Na hora eu achei estranho me ver com aquilo pendurado, mas depois fui me acostumando à dormência e até esquecendo que eu estava usando. Só achei esquisito porque o brinco não foi furado no centro do meu glóbulo, ele ficou meio descido, pra trás, sei lá, mas quase não dava pra perceber. Só algumas pessoas conseguiram perceber esse pequeno defeito.

Pensei que ao chega no Corredor, ficariam surpresos a me ver com uma coisa que, para uns, não tinha nada a ver comigo. Mas, não, o meu brinco foi bem vindo. Todos gostaram e perguntaram por que eu não o adotaria de vez. Pensei bastante sobre isso, mas achei melhor não adotar, pelo menos por enquanto. Eu sei a família que eu tenho e o preconceito dentro de casa seria grande, além de no trabalho. Eu não consigo me ver usando brinco do lado do meu pai. Sei lá, vai que de repente o nosso chefe aparece por aqui e... phudeu!

Nenhum comentário:

Postar um comentário