segunda-feira, 13 de julho de 2026

A SAUDADE TEM ROSTO

Agora há pouco desabafei chorando no dix e resolvi registrar aqui também. Pra quem não sabe, dix, segundo a IA, é "uma gíria da Geração Z para um perfil privado alternativo no Instagram. Derivado da expressão 'para deixar', funciona como um espaço íntimo e seguro onde jovens compartilham desabafos e momentos espontâneos apenas com um grupo muito seleto de amigos próximos." 😉

Neste mês de julho vou ter que trabalhar em algumas cidades vizinhas daqui. Para os deslocamentos, precisamos utilizar as famosas "topiques" (assim chamam as vans daqui). Hoje, assim como dias atrás, também precisei pegar uma delas.

No sábado, quase 7h, fui para o ponto das topiques para ir a Ubajara, cidade a uns 20 minutos daqui. O trabalho foi até às 10h e foi bem divertido. Ao "encerrar o expediente", acabei ficando por Ubajara mesmo. O restante do pessoal do meu trabalho voltou pra Tianguá. Aproveitei essa oportunidade pra ficar um pouco mais com o B. no final de semana e até fomos pro Parque Nacional no domingo pela manhã. 

Hoje, cedo, estava certo de irmos a outra cidade, um pouco mais distante, mas ainda vizinha daqui: São Benedito. Acordamos cedo. Glyson e Conceição pegaram a topique em Tianguá, me enviaram o número, a placa e outras informações pra eu ficar atento e entrar no mesmo transporte deles. Enquanto acompanhava a localização em tempo real que o Glyson me enviou pelo WhatsApp, aconteceu algo.

Estava encostado em uma coluna da farmácia da esquina quando uma criança, de camisa, calça e chinela, aparentando ter uns 10 anos, parou na minha frente, só que de costas. Parecia meio desconfiada, olhando pra um lado e pro outro. Eu, com os fones de ouvido no volume máximo e o celular na mão, com medo de alguma investida, coloquei rapidamente o celular dentro do bolso. Não que isso seja algum tipo de preconceito, mas posso explicar: em uma viagem ao RJ, quase fui assaltado por uma criança, e isso acabou me deixando meio traumatizado.

A criança, sem olhar pra mim, começou a falar. Pausei o fone de ouvido dando um clique no lado direito e entendi da metade da frase pra frente: "...trocado pra eu merendar?" Como, pra bom entendedor, meia palavra basta, entendi o recado. Ele estava pedindo dinheiro pra poder comer, ali, quase 7h da manhã. No automático, respondi que não tinha - mas realmente não tinha dinheiro em espécie, pois há muitos anos nem carteira eu ando mais levando, com a facilidade do Pix e dos documentos no celular.

Do lado havia uma quitanda. Não sei como definir uma quitanda hoje em dia, mas digo que lá tinha biscoitos, pães, refrigerante, pastéis... Levei o menino pra lá. Entrando, o senhor estava fritando pastéis no fundo do estabelecimento. Bati palmas pra chamar sua atenção. Logo ele veio, e falei: "O senhor pode dar um pastel e um guaraná pra esse rapaz?" O menino logo disse: "Tem pastel de quê?" Não lembro exatamente o que o senhor respondeu, mas pegou o pastel e entregou nas mãos da criança. Pedi novamente que ele entregasse o guaraná também, e logo foi buscar no freezer.

O menino sentou em uma cadeira de madeira em frente à TV que estava logo no alto da parede, juntou as pernas e as apoiou no apoio para os pés da cadeira, abriu o refrigerante, mordeu o pastel e tomou um gole. Enquanto isso, eu pagava aquele lanche. Ao sair, passei na frente dele. Ele confirmou com a cabeça e sorriu. Sorri de volta. Eu fiz aquele menino feliz naquele momento.

Assim que coloquei o pé pra fora da quitanda, veio de dentro de mim uma força tão grande que não sabia explicar. Sò foi o tempo de chegar à mesma coluna da farmácia da esquina e comecei a chorar. Há muito tempo eu não chorava assim, de dentro, sem ter esse controle. Ao mesmo tempo em que meus olhos não paravam de criar lágrimas, eu tentava limpá-las com as mangas do meu casaco. Inclusive, enquanto digito isso, revivo a cena e volto a chorar. 😢 Naquele momento, lembrei do Eduardo, meu sobrinho. Parecia ele ali. Acho que foi a saudade que ligou esses fatos, e eu desabei em choro.

Baixei a cabeça, mas percebi que as poucas pessoas que passavam ali na minha frente observavam esse meu "surto". Eu sentia vergonha, mas ninguém me conhecia. Eu não podia fugir.

Ainda ali, mandei mensagem pro B. contando a situação e mostrando minha cara, tirando uma selfie em visualização única. Tenho certeza de que eu estava vermelho, pois era como se todo o meu corpo quisesse gritar. Com os olhos embaçados, não consegui ver realmente a foto que enviei: foi abrir a câmera, clicar, colocar em visualização única e enviar, tudo em frações de segundos. Também mandei mensagem pra um grupo que tenho com Giovanna, Karen e Jessica e mostrei a mesma coisa. Eu precisava descarregar aquele sentimento naquele momento. Era um desabafo.

Poucos minutos depois a topique chegou. Limpei as lágrimas e tentei engolir aquele choro pra ninguém perceber, mas nem tinha como. Aos poucos, vendo a paisagem e a neblina na estrada, fui esquecendo e me recompondo.

Não sei se um dia vou ver esse menino novamente, mas sei que, mesmo que ele esqueça esse dia, eu nunca vou esquecer.

👦🏻🩷

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